quinta-feira, 18 de outubro de 2007

DEFINIÇÕES CORPORATIVAS

Fábio Steinberg
A comédia da vida corporativa O lado caricato nas grandes empresas do país, com personagens (quase) de carne e osso
Revista Veja nº 49 (6 de dezembro de 2000)
O charme real e virtual que cerca a vida dos altos executivos enche os olhos de quem está de fora do seleto grupo de homens e mulheres que comandam grandes corporações. Viagens internacionais, carros importados, cartões de crédito sem limite e hospedagens em hotéis cinco-estrelas são fascínios que alimentam as máquinas corporativas e motivam o trabalho desde o mais tenro estagiário ao gerente de carreira mais sólida. Todos querem atingir o topo da pirâmide social das empresas e manter-se nele. Foi escrita uma infinidade de obras pretensamente capazes de ensinar como chegar lá. Elas se revezam nas primeiras posições da lista de livros mais vendidos. Muitas se tornaram clássicos. Coube ao consultor Fábio Steinberg, carioca de 50 anos, mais de trinta deles trabalhando em algumas das maiores empresas nacionais e multinacionais instaladas no Brasil, pintar o outro lado da aventura. Ele deixa as repisadas glórias da rotina empresarial para os outros e concentra-se nas baixezas.
Steinberg reuniu em livro meia centena de ensaios escritos sobre o lado caricato da vida corporativa, alguns já publicados pela revista Exame, do Grupo Abril, que edita VEJA. Deu ao livro o nome de Ficções Reais (Editora Campus; 221 páginas; 25 reais). "É um mito imaginar que se chega ao paraíso depois de ultrapassar determinado ponto da carreira. Também é irreal a concepção de que a escalada é sempre segura para quem tem talento, é esforçado e honesto", diz Steinberg. "Na verdade, sobem mais rápido os burocratas espertos, que decifram os códigos da empresa, e não os funcionários mais produtivos." Steinberg demonstra especial interesse num certo tipo que ele define como "pavão corporativo". É o sujeito seguro, cheio de planos, sempre ocupando um cargo de conselheiro, o que o livra das responsabilidades às vezes demolidoras de tomar decisões erradas. "Não importa a moda administrativa, eles sempre escapam da degola e seguem sua vitoriosa carreira de inutilidade", explica o autor. Suas crônicas falam também da amargura e das apostas ousadas que os executivos ambiciosos fazem para subir a qualquer preço. Vale tudo para chegar ao topo da empresa e garantir poder e prestígio: casar com a filha feia do patrão, valer-se de informação privilegiada para chantagear colegas e superiores, apresentar projetos mirabolantes que não levam a nada e montar uma boa e bem arquitetada rede de relacionamentos construída somente para facilitar a escalada até o topo. "Não são pessoas sem caráter. Apenas são forçadas pelas circunstâncias a atropelar sua ética pessoal em busca do sucesso", diz Fábio Steinberg.
Quem já pendurou no peito o crachá de uma empresa, com foto e número de identificação, sabe que a vida corporativa tem seu lado teatral – como toda e qualquer atividade humana organizada coletivamente, seja na escola ou na família. Mas, vistos em grupo sob a ótica crítica de Steinberg, os "seres corporativos" parecem mais pérfidos que as demais pessoas. E nesse aspecto está o lado caricato e engraçado do livro. Entre seus personagens estão secretárias que vivem num mundo de faz-de-conta, executivos com cultura de almanaque, carreiristas com respostas na ponta da língua e burocratas cuja única preocupação na carreira é criar situações que tornem sua função imprescindível. Seus personagens são tirados de exemplos reais de carne e osso? "Eles são frankensteins feitos de retalhos de pessoas reais e outras nem tanto", explica o autor. Na semana passada, quando o livro começou a circular ainda de forma restrita (ele chega às livrarias nesta semana), havia apostas sobre quem seria quem entre alguns dos personagens de Fábio Steinberg. Chamou a atenção o último dos ensaios, intitulado Eunice sem Sobrenome, que conta a história de uma mulher executiva sem um sobrenome famoso que vence no mundo corporativo sempre como a Eunice da IBM, ou do Pão de Açúcar, ou da Microsoft. Pelas similaridades do relato com a carreira de Marluce Dias, a "Marluce da Globo", sob cujas ordens Steinberg trabalhou recentemente, fica a impressão de que ele quis mesmo caricaturar a vida da ex-chefe. "Não faria isso. Existem muitas executivas no Brasil que se encaixam no perfil da Eunice sem sobrenome", limita-se a informar o autor.
Há vários outros caricaturados que se encaixam em alguns aspectos nas figuras poderosas que cruzaram a vida profissional do autor do livro. O executivo que se sente "o dono do mundo" depois de sair na capa de uma revista e vê o mundo desmoronar em seguida ao ser demitido semanas depois seria Omar Carneiro da Cunha, que foi presidente das filiais da Shell e da AT&T no Brasil. Hoje é o principal executivo do grupo Bob's. "Não é segredo para ninguém que Omar é muito vaidoso, mas o personagem que criei, nesse caso, é fictício", diz Steinberg, que, igualmente, trabalhou com Carneiro da Cunha. Se fosse um livro de revanche contra ex-chefes, a obra de Steinberg seria limitada por esse aspecto utilitário e perderia muito do interesse que pode despertar. O mundo que ele relata tem lá sua harmonia, sua ética estranha e particular. Conhecê-lo através dos olhos do autor, mesmo com a tentativa que ele faz de não ser neutro, ajuda a entender o universo descrito.
A maneira como carreiras de sucesso são construídas ou desfeitas chama a atenção de estudiosos do meio empresarial há muitas décadas. Várias publicações sobre o tema surgiram nos últimos anos pelo mundo afora. Esses estudos mostram como uma boa rede de relacionamentos vale mais do que a capacidade profissional em alguns casos. Quase tão vital quanto saber fazer é saber se vender, propagandear suas qualidades. É assim que as empresas são organizadas. Mesmo as melhores. Como em toda organização, existem tipos obscuros, seres enigmáticos cujo sucesso desafia o entendimento pelo senso comum. Esse tipo é relatado com precisão num dos capítulos do livro, por sinal a parte mais engraçada. Steinberg chama esse profissional de "ratocorp" – ou o rato corporativo. "Ele tem orelhas grandes, para ouvir cada sussurro, e olhos esbugalhados, para não perder qualquer movimento. Não é o puxa-saco comum, nem o carreirista. É, mais do que isso, o sujeito que se apossa das sobras de energia e de talento dos colegas e nunca é demitido, nem nas crises econômicas mais profundas."
Outro tipo revelado por ele, não sem uma certa crueldade, é o das pessoas que descobrem na corporação uma vida mais confortável do que conseguem bancar na esfera privada. "A vida na empresa é muitas vezes melhor que a real. Isso cria um choque nas pessoas. Elas passam a viver um conto de fadas, como a gata borralheira. São príncipes e princesas na vida corporativa que voltam a sua realidade no final do dia", diz. E, quanto maior a empresa, maior a distância entre a realidade e a ficção das corporações. Jantares em restaurantes da moda, hospedagem em hotéis de luxo, carro zero, roupas de grife e poder sobre o destino das pessoas fazem parte da vida corporativa. Contas a pagar, filhos para criar, conserto do carro, reunião de condomínio e cheque especial estourado fazem parte da vida real. "As pessoas querem abandonar, mesmo que por algumas horas do dia, a vida real em preto-e-branco e viver a vida colorida que as empresas proporcionam."
Steinberg não é o primeiro nem o mais devastador cronista da vida corporativa. Esse tema é antigo e já teve inúmeros intérpretes. Muito conhecido, o cartunista americano Scott Adams foi um dos que levaram a ironia para os quadrinhos com que retrata o universo das grandes empresas. Dilbert, seu herói, ou anti-herói, surgiu como uma resposta aos projetos de reengenharia, um modismo na administração do começo dos anos 90. Pela ótica de Dilbert, independentemente do modismo em voga, toda a administração é baseada numa rígida hierarquia, que lembra o modelo militar. O general é o presidente. Logo abaixo vêm vice-presidente e diretores, que poderiam ser os coronéis. O sargentão é o chefe imediato, que, atingido pelo stress de carregar todos os chefes acima dele, anda normalmente mal-humorado. A lista segue até o chamado soldado corporativo, aquele que não conhece quase nada da estratégia da empresa, cumpre suas obrigações e espera um dia ser reconhecido. Dilbert faz rir mostrando como as culturas corporativas acabam fazendo as pessoas se cercarem de zonas de proteção formadas de boas doses de cinismo. No fundo, são todos iguais. Os fracassados e os bem-sucedidos. Steinberg aborda bem a massificação dos executivos. "O gênio e o idiota têm a mesma chance de triunfar na civilização corporativa", diz Steinberg. Thomaz Wood Junior, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e autor do livro Organizações Espetaculares, com lançamento previsto para este mês, completa: "Ninguém escapa da doutrinação corporativa. Ou se adapta ou é expelido". Wood estudou o que chama de teatro da vida organizacional em sua tese de doutorado e chegou à conclusão de que para muitos executivos o trabalho substitui a vida. O trabalho, nesse aspecto, pode tornar-se ele próprio uma forma de caricatura.
Carlos Prieto

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Carta-manifesto de João Ubaldo Ribeiro

"Caros amigos,
Anexada em forma de documento do Word está uma notícia publicada no Globo de hoje, sábado. É estarrecedor. Estamos ingressando numa era totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar?
Será proibido em breve o uso de palavrões na língua falada no Brasil? Serão eliminados dos dicionários vocábulos e expressões não consideradas apropriadas pelo Governo? Palavras veneráveis da língua, como "beata", em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada uma polícia da linguagem? Os brasileiros serão proibidos por lei de discutir vigorosamente e xingar os interlocutores?
Que autoridade tem essa secretaria para emitir essas opiniões, que por enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal disfarçada em que vivemos, que uma Medida Provisória, da mesma forma com que já nos confiscaram a poupança e os depósitos bancários, venha a ser baixada, confiscando também a nossa língua e os nossos costumes, mesmo os inaceitáveis pela maioria?
Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados para que se expurguem termos ou expressões condenadas? Contar piadas será tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da língua?
As palavras "negro", "preto", "escuro" e semelhantes, nos casos em que não estiverem sendo usadas sem relação alguma com a cor da pele de ninguém, serão vedadas, se em qualquer contexto julgado negativo?
As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros, quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Os túneis são escuros e existe alusão racial na expressão "luz no fundo do túnel"? A peste bubônica não poderá mais ser mencionada como a "peste negra"?
Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que até o seja, mas não se considere como tal? Não se poderá mais dizer que alguém é burro ou cometeu uma burrice? Será publicada uma lista de palavras de uso permitido, ou de uso proibido? Acontece isto em alguma outra parte do mundo? Se um homossexual, como fazem muitos deles, rotular-se a si mesmo de "veado", poderá ser censurado ou punido? O pronome indefinido peculiar à língua falada no Brasil ("nêgo", como em "nêgo aqui gosta muito de uma festa") só será aceitável se for numa afirmação elogiosa ou "positiva"?
O ridículo dessa cartilha não nos deve cegar para o fato de que está começando o que parece ser uma ampla distribuição, que certamente atingirá as escolas, nas quais, já hoje, são obrigadas a classificar racialmente os alunos, dando a entender que certas áreas certamente considerarão um progresso e um passo em direção ao ambicionado terceiro mundo a instituição da segregação no Brasil.
Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, preconceituoso (ele, sim), asnático, deletério e potencialmente destrutivo -- e, o que é pior, custeado com o nosso dinheiro. Que está acontecendo neste país? Aonde vamos, nesse passo? Quanto tempo falta para que os burocratas desocupados que incham a máquina governamental regulem nossa conduta sexual doméstica ou nosso uso de instalações sanitárias?
Enfim, o que é isso, pelo amor de Deus? Até quando vamos suportar sermos tratados como um povo de ovinos imbecis e submetidos ao jugo incontestável da "autoridade"? Todo poder emana do povo ou da burocracia? Podermos ser processados, se chamarmos um membro do serviço público de "funcionário"? Temos liberdade para alguma coisa?
Foi o Estado que nos concedeu o direito de pensar, opinar e dizer, ou este é um direito básico e inalienável, que não nos pode ser tirado? Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, esse escândalo, essa vergonha, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços.
Até onde vamos regredir? É preciso que reajamos, é indispensável que os homens responsáveis por tal despautério sejam dispensados do serviço público, porque lá estão para cometer atentados à liberdade e arbitrariedades desse tipo.
É indispensável que assumamos nosso papel de cidadãos detentores da soberania que, pelo menos nominalmente, é entre nós a soberania popular. CHEGA DE BURRICE, CHEGA DE ABUSO, CHEGA DE INCOMPETÊNCIA, CHEGA DE MERDA JOGADA SOBRE NOSSAS CABEÇAS!
Ou então que nos calemos e vivamos o destino de gado a que forcejam para cada vez mais nos impor, a escolha é nossa e essa iniciativa grotesca e idiota seja imediatamente esmagada, ou em breve não teremos direito a mais nada, nem à nossa língua, aos nossos sentimentos e à escolha de nosso comportamento que, não sendo criminoso, é exclusivamente da nossa conta e de mais ninguém.
Não podemos ser mais humilhados e envergonhados dessa forma, exijamos respeito e seriedade, defendamos nossa integridade e dignidade, rebelemo-nos e, sim, xinguemos -- bons filhos das putas -- ou, melhor, bons rebentos de profissionais femininas do sexo, para respeitar as novas diretrizes.
Vão se catar, e não às nossas custas, como vêm fazendo até agora. Desculpem, mas eu não posso conter a indignação e tentar passá-la para tantos compatriotas quanto possível. Saudações democráticas, revoltadas e dispostas a se tornarem revoltosas, de João Ubaldo Ribeiro"